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Racismo

O Racismo Estrutural

Por Cristiane Santos

A questão do racismo estrutural tem ganhado notoriedade em várias partes do mundo. Seja nos Estados Unidos da América, representado pelas ações truculentas da polícia estado-unidense, ou no Brasil, marcado diariamente por ações individuais e de agentes públicos brasileiros. O fato é que compreender a lógica do racismo, ainda mais em seu caráter estrutural, é extremamente importante, pois uma das formas de combatê-lo é conhecer quais são suas estruturas, como age e se manifesta na sociedade brasileira.

Quando falamos em sociedades contemporâneas ou atuais, precisamos identificar quais são os pilares que as sustentam. Costumo comparar as sociedades contemporâneas a uma casa. Para construir um imóvel é fundamental estabelecer sua fundação. Os profissionais da construção civil se preocupam em estabelecer o perímetro da área a ser construída, organizam as divisões de cada cômodo e, a partir desta organização, iniciam a instalação de seus pilares, estes serão os responsáveis por sustentar tanto as paredes, quanto o teto daquele imóvel. As sociedades contemporâneas são semelhantes àquela casa, pois sua organização foi fundamentada sobre os pilares do capitalismo, racismo, patriarcado e heteronormatividade. Cada um deles é responsável pela estrutura e funcionamento das sociedades dos dias atuais.

No caso do racismo, em especial nos países com passados escravocratas, a exemplo do Brasil, sua presença não se resume apenas as suas bases. Similar a casa, o racismo está em cada tijolo que compõe as camadas da sociedade. Podemos dizer que o racismo é estrutural por ser sistêmico e está presente em todos os níveis que compõem a vida social. Conforme Silvio Almeida, o racismo é um sistema de poder e discriminação baseado na raça, e atua em todas as áreas da sociedade: educação, emprego, relações afetivas, economia, política, saúde e lazer, através de práticas conscientes e inconscientes que levam a privilégios e desvantagens para indivíduos conforme seus grupos raciais. É necessário salientar que o termo raça, enquanto diferenças físicas e culturais, passou a ser empregado a partir do século XVI com a exploração do continente americano e opressão de seus povos. Mas, no século XIX, o conceito de raça foi associado às hierarquias entre seres humanos. Esta associação originou o surgimento do racismo científico, implantando a ideia de raças superiores e inferiores, ao mesmo tempo em que, justificou a dominação de uns povos sobre outros com base em diferenças físicas e culturais. Hoje, o termo raça é um conceito sociológico usado para explicar a organização e o funcionamento das sociedades atuais.

As manifestações do racismo no Brasil atingem com força as comunidades negras e indígenas. A principal característica do racismo é a opressão e negação do acesso aos direitos básicos como preservação da vida, educação de qualidade, direitos de ir e vir plenos, acesso à saúde, habitação digna, saneamento básico, além da fragilização da autoestima, e da presença constante do preconceito, discriminação e intolerância religiosa frutos de ações individuais ou coletivas. No caso da população negra, o mais recente levantamento do IBGE demonstrou que 56% da população brasileira é composta por pessoas negras: grupo formado pelos autodeclarados pretos e pardos. Este grupo compõe também a maior parcela nos índices do desemprego, de morte violenta, da população carcerária e dos que recebem os menores salários em relação à população branca. Em matéria recente intitulada O racismo faz mal à saúde (https://saude.abril.com.br/bem-estar/racismo-faz-mal-a-saude/), a revista Veja apresentou dados importantes sobre como a opressão imposta pelo racismo, marcado pelo preconceito e discriminação diários, colaboram com o adoecimento físico e mental da população negra. Infelizmente, é muito comum pacientes negros não receberem a devida atenção dos médicos ou terem seu sofrimento físico, e muitas vezes mental, reduzidos pelos profissionais de saúde. Como exemplo, a matéria traz o depoimento da médica Monique França que atua no Programa Saúde da Família no município do Rio de Janeiro:

“A discriminação em si pesa bastante no acesso a uma saúde de qualidade e reverbera até nas células do organismo. Sabemos que, por razões genéticas e ambientais, negros têm maior propensão a hipertensão, diabetes tipo 2 e anemia falciforme, por exemplo, mas o DNA sozinho não justifica por que eles sofrem mais com os impactos dessas doenças. O que me chama a atenção não é a população negra ter essas condições, mas não conseguir diagnosticá-las, não poder controlá-las e ir a óbito por causa delas, sendo que existe tratamento para todas”. “Isso tem a ver com os obstáculos para receber orientação e atendimento de saúde adequado, uma chaga que afeta até o momento das consultas”.

Como exemplo disso, compartilharei duas experiências pessoais que tive dentro de um ambiente que deveria promover a saúde. Sou uma mulher negra, nascida e criada em uma comunidade periférica de Salvador. Certa vez, fui a uma consulta de rotina com o ginecologista em um posto de saúde. Acredito que na época eu tinha no máximo vinte anos. Fui acompanhada por minha mãe e por uma sobrinha que também faria consulta com o mesmo médico. Minha sobrinha tinha uns quatorze a quinze anos na época. A consulta não envolvia procedimentos invasivos, pois o médico deveria apenas ouvir as pacientes e prescrever exames a serem feitos em outras unidades de saúde. Eu e minha sobrinha fomos atendidas, simultaneamente, pelo mesmo médico. Atendidas é um eufemismo, já que o médico não se preocupou em me ouvir e me ignorou por completo durante a consulta. Naquele dia, percebi que o racismo também direciona o tipo de atendimento médico que é dado a população negra, pois naquela sala, eu representava a maior parcela da população nacional formada por moradores de periferias majoritariamente negros. Saí do consultório médico com a sensação real de invisibilidade, pois em nenhum momento aquela médico se preocupou em me ouvir.

A segunda experiência aconteceu anos depois em uma sala de cirurgia de um hospital público. Desta vez eu não era a paciente, mas a instrumentadora cirúrgica que auxiliaria em uma cirurgia de amputação de membro inferior. O paciente era um homem negro, com aproximadamente quarenta anos e portador de uma doença sexualmente transmissível. A cirurgia de amputação já é por si só um procedimento doloroso aos olhos de quem assiste, uma vez que o paciente entra na sala cirúrgica fisicamente completo e sai dela sem um de seus membros. Aquela não era a primeira vez que eu participaria de uma cirurgia de amputação. Mas aquele episódio me marcou, pois enquanto eu segurava a perna do paciente e os médicos a separavam de seu corpo, ele começou a gemer de dor. O paciente tinha sido anestesiado, mas seus gemidos eram constantes a cada incursão do fio de aço em sua articulação. Não suportando mais aqueles gemidos, perguntei a médica se ela não pediria que o anestesista aumentasse a dose do anestésico a fim de aliviar temporariamente o sofrimento daquele homem. Ela simplesmente respondeu que a dor não era da amputação, mas de sua condição terminal, uma vez que ele era portador de uma doença sexualmente transmissível incurável. A frieza e naturalidade daquela médica me surpreenderam, pois independentemente dele estar ou não em estado terminal, o papel dela era reduzir ao máximo o sofrimento daquele homem. O comportamento daquela profissional vai ao encontro do pensamento racista que alimenta a ideia de que pessoas negras suportam mais dor porque são física e emocionalmente mais fortes do que pessoas brancas. Este tipo de crença faz com que pessoas negras não recebam os mesmo cuidados e compaixão em momentos de dor, seja física ou emocional.

Eu poderia aqui citar inúmeros pesquisadores e estudiosos que analisam e combatem o racismo na sociedade brasileira, mas preferi apresentar estas duas experiências pessoais que, para quem não é negro, podem facilmente passar despercebidas, mas que são vividas diariamente por inúmeras pessoas negras deste país. O racismo estrutural se manifesta tanto através do preconceito escancarado por meio de falas e comportamentos individuais e coletivos, quanto através de ações sutis como as daqueles médicos que desconsideraram a humanidade de seus pacientes. Um dos primeiros passos para combater o racismo é reconhecer sua existência e admitir que, em algum momento de nossas vidas, praticamos racismo contra outra pessoa. Muitas vezes, “brincadeiras” ou apelidos são expressões do racismo, comportamentos como segurar a bolsa quando passamos diante de homens negros ou escondermos o celular quando jovens negros entram no transporte coletivo também são expressões do racismo. Todos estes comportamentos aparentemente inofensivos são nocivos à sociedade porque compactuam com a manutenção da opressão de 56% da população brasileira e com a negação do acesso a sua real cidadania.

Referências Bibliográficas:

ALMEIDA, Silvio. O que é racismo estrutural? Belo Horizonte: Letramento, 2018.

RIBEIRO, Djamila. Pequeno Manual Antirracista. São Paulo: Companhia das Letras, 2019

Matéria Racismo faz mal à saúde. Revista Veja, página: (https://saude.abril.com.br/bem-estar/racismo-faz-mal-a-saude/)

Cristiane Santos de Jesus é mestra em História pela UFBA e professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia - IFBA, Campus Irecê.

Publicado em: 15/09/2020 às 16:00