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Racismo

Raça, de Stephen Hopkins

Por Matheus Lima Barrêto

A cinebiografia Raça, lançada em junho de 2016, narra a história de Jesse Owens (Stephan James), filho de colhedores de algodão, neto de escravos e atleta olímpico americano que superou o nazismo, a segregação racial, participando dos jogos olímpicos de Berlim em 1936 durante o regime nazista e conquistou 4 medalhas de ouro. O filme foi produzido por Stephen Hopkins, diretor de A sombra e a escuridão, Sob Suspeita.

Raça não pretende contar toda a trajetória de vida de Jesse, apenas a sua participação nas olimpíadas, adicionando alguns personagens que marcaram sua grande vitória, como o seu treinador Larry Snyder que ensinou Jesse a tratar o racismo e a segregação racial onipresente como “apenas barulho”, um erro, mostrando que o racismo é estrutural e se ignorarmos, como aparece no filme, não fará com que ele desapareça. Também traz o atleta rival de Jesse, Luz Long (David Kross), que perdeu para Jesse e desafiou o regime nazista ajudando o rival a conseguir vencer a etapa. E, finalmente, Riefenstahl, o traço feminista do filme, uma diretora mulher determinada e segura, que quase foi impedida de documentar a competição de Owens.

O filme também traz uma mistura de emoções ao ver símbolos nazistas por toda parte, insultos racistas a cada corte de cena feito pelos colegas de Jesse e até pelos figurantes do filme. A fotografia, os diálogos estão todos devidamente presentes e bem produzidos para nos lembrar o que de fato aconteceu na história. A mista sensação de alívio e tristeza ao saber que Owens superou tantos desafios, ver que tais desafios não foram suficientes para o mundo racista, pois Jesse conquistou seu lugar, mas não foi reconhecido como deveria. Após todo sucesso, a segregação racial continuava, o que pode ser confirmado na cena final onde Jesse foi homenageado em um jantar importante, porém não pode participar como todos os convidados. Impedido de entrar pela porta principal, Jesse foi convidado a entrar pela porta dos fundos, encontrando vários trabalhadores negros e evidenciando o racismo estrutural, no qual negros são postos em posições de serviços laboriosos enquanto a Casa Branca representa a elite branca dos Estados Unidos.

A cena em que Owens foi convidado a entrar pela porta dos fundos não é incomum Ryan Murphy diretor da famosa America Horror Story, também retrata o racismo e a segregação racial em Hollywood (2020), ambientada após a segunda guerra mundial. Na era de ouro do cinema americano, Murphy menciona o mesmo ocorrido com uma atriz negra, Hattie McDaniel, protagonista de “O Vento Levou”, que se tornou a primeira atriz negra a ganhar um Oscar (reconhecimento, assim como o Jesse), porém não pôde se sentar na mesma fila que seus colegas de elenco. Tais referências, inclusive reais, nos mostram que a segregação e o racismo da época eram muito comuns, e, mesmo que pessoas negras ganhassem prêmios importantes, ainda assim, não era suficiente, pois não tinham o reconhecimento que mereciam.

No final de Raça é apresentada uma breve história da vida de Jesse, com algumas fotos das pessoas importantes que participaram da sua vida e algumas notas dizendo que a Casa Branca nunca reconheceu publicamente Jesse ou seu sucesso:

“Eu tinha que sentar na parte de trás, eu não podia morar onde queria (...) Eu não fui convidado a apertar a mão de Hitler, mas eu também não fui convidado a Casa Branca apertar a mão do presidente americano” Jesse conta em seu diário que a segregação que sofreu não foi apenas da Alemanha, mas também do seu próprio país.

Ownes morreu em março de 1980, é um símbolo na história do atletismo e uma inspiração para atletas negros, mostrando que o esporte está relacionado a questões sociais e políticas, e que, passado 80 anos, ainda precisamos discutir racismo no esporte.

Matheus Lima Barrêto é aluno do 4º semestre do curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas do Instituto Federal da Bahia, Campus Irecê.

Publicado em: 18/09/2020 às 18:07